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José Luiz

opinião

Publicado: 30/01/2018 às 09h02min

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Você acredita em assombração?

Nas rodas de chimarrão e churrasco no galpão, nos meus tempos de guri ouvi relatos de arrepiar o cabelo

Noite de lua cheia, corujas com seus rosnados, sapos coachando, quero-quero gritando, pássaros notívagos ocupando o espaço com chiados estridentes, não havia dúvidas se tratava mesmo de uma assombração…!!!

Para entender melhor essa conversa de assombração é preciso esclarecer que o povo campesino que habita a região de fronteira no Sul do País, acredita em lobisomem, boi tatá, cobra grande, mau agouro, almas perdidas, mãe do ouro e outras tantas crendices. Nas rodas de chimarrão e churrasco no galpão, nos meus tempos de guri ouvi relatos de arrepiar o cabelo.

Tudo isso e muito mais, por que fora nas coxilhas e canhadas desta vasta área fronteiriça, no Rio Grande do Sul, as margens da Argentina e Uruguai que em fevereiro de 1893 a agosto de 1895, o grupo Federalista liderado pelo caudilho Gumercindo Saraiva, em combates sangrentos, na espada e no lombo do cavalo enfrentaram os positivistas que agiam sob a batuta do ditador Júlio de Castilhos, devastando praticamente a metade do Estado sulino.

Em 1889, com a Proclamação da República, grupos políticos compostos por várias lideranças regionais entraram em conflito, de tal forma, que em apenas dois anos o rio Grande do Sul teve 18 governadores. Federalistas, Monarquistas, Caudilhos, republicanos, Maragatos, Ximangos e Pica-Paus, peleavam em campo aberto como gente grande. Essa crise acabou em 24 de junho de 1895, com a derrota dos federalistas acelerando o processo de paz no pampa.

Os registros indeléveis destes conflitos violentos existem até hoje. Nos distritos de Pinheiro e Pau-Fincado, ainda se encontram sinais dos arranca-rabos, no lombo do cavalo, na espada e nas garruchas carregadas pelo cano testemunhado pelo silêncio nos campos. Nas margens de uma estrada de chão batido que corta o município de São Gabriel em direção à Argentina, no alto de uma coxilha, existe uma cruz de cerne de angico sinalizando numa homenagem simples que ali descansam 273 revolucionários que foram degolados pelos adversários, sem ter tempo para rezar.

Entre estes distritos no inicio da década de 1950 apareceu por lá um “castelhano”, Juliano Sobreira, que montou um bolicho a margem da estrada para vender pinga, arroz, charque, feijão, uma cancha de bocha onde nos finais de semana a peonada das fazendas se reunia para contar causos de assombração, de carreiras, de peleias e chinas mal domadas.

Numa sexta-feira Santa, ao cair da tardeacompanhado pelo meu avô Fidêncio Alves de Lima, mais uns quatro ou cinco peões da fazenda de meu pai, seguimos para o bolicho do “castelhano”. Por volta de umas 23 horas deixamos o local e seguimos andando a pé pela estrada em direção à fazenda distante dali uns dois quilômetros. Entre descidas e aclives avistava-se lá no alto da coxilha a cruz, em respeito aos degolados.

Há uns 600 ou 700 metros pouco mais pouco menos do bolicho, tem um declive onde na distância de uns 300 metros depois de uma sanga de água cristalina havia um aclive, onde lá no alto avistamos um vulto balançando e parecia que acenava em nossa direção. Noite de lua cheia, corujas com seus rosnados, sapos coachando, quero-queros gritando, pássaros notívagos ocupando o espaço com seus chiados estridentes, não havia mais dúvidas se tratava mesmo de uma assombração.

O vulto balançava, formando sinais negros no solo diante da luminosidade da lua cheia. Os gaúchos tremiam dentro das bombachas, parados, estaqueados sem saber que atitude tomar. Florício um jovem de uns 20 anos partiucorrendo de volta em direção ao bolicho do “castelhano” buscando uma dúzia de velas para acender e rezar na tentativa de afugentar assombração.

Acompanhando o Florício, vieram o “castelhano” e outros peões, que sentenciaram: “é assombração e das bravas”. O “Castelhano” engatilhou a garrucha de dois canos e disparando dois estrondos ao mesmo tempo em direção ao vulto, que soltou um urro aterrorizante e partiu em disparada ornando e levantando poeira estrada.

Tratava-se de um velho jumento que se perdeu da manada, e por certo, encontro a porteira aberta e veio descansar no leite da estrada…


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sobre José Luiz Alves

Jornalista, com pós-graduação em Gestão Ambiental, especialização em agronegócio, prestou assessoria de imprensa ao Ministro da Agricultura Sinval Guazzelli, ao ex-governador de Mato Grosso do Sul, Wilson Barbosa Martins, subeditor de área rural do Jornal do Brasil do Rio de Janeiro, apresentou programas voltadas para agricultura e pecuária na TV Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, foi editor da área rural no jornal Diário da Amazônia, atualmente apresenta o programa “Campo e Lavoura” em rede estadual na Rede TV! em cadeia com seis emissoras de rádios no interior do Estado.

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