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Elizete Ignácio

opinião

Publicado: 03/05/2017 às 08h42min

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Uma vida em segredo contra a realização pessoal

O livro nos mostra que a felicidade pode estar em uma vidinha sem muitas ambições, sem tantas realizações, que apenas segue.

“Uma vida em segredo” é um livro de Autran Dourado, autor pouco incensado pela mídia e, logo, desconhecido dos não aficionados em livros.

Já perdi a conta de quantas vezes li este livro e o elegi como livro da cabeceira direita da minha cama. Faz sentido ele ficar à direita [campo “tradicionalmente” reservado ao individualismo, para quem não entendeu a ironia].

É um livro sobre a individualidade, não a conceitual, mas a existencial. Narra história de uma jovem que, após ficar órfã, passa a morar com os tios. Isto é o livro todo e, inclusive, o fim dele: trata-se de um livro inteiro sobre uma órfã que mora com os tios. No mundo contemporâneo, cheio de buscas do por uma vida cheira de aventuras e realizações de desejos que tornem a existência plena de sentidos, Biela (a órfã) leva uma vidinha assim, vidinha, sem grandes ambições, sem querer um “casamento que lhe desse futuro”, sem desejar vestidos e joias (é um livro do início do século passado, quando se considerava que as maiores ambições das mulheres eram estas), nem sequer viver na pequena cidade. O seu sonho de vida é… levar essa vidinha.

Li este livro a primeira vez há mais de quinze anos. Nunca consegui compreendê-lo direito. E neste momento em que pela primeira vez escrevo sobre ele, confesso que continuo sem entender, provavelmente por falta de recursos e técnicas para uma boa crítica literária, o que me fez recorrer aos oráculos pós-modernos:

“Nela, o autor traça o retrato de Biela, jovem humilde que, após a morte do pai, é obrigada a mudar-se da fazenda para a cidade, e não consegue adaptar-se ao novo ambiente. A obra é célebre pela profundidade da exploração psicológica lograda por Dourado, e também por mostrar a riqueza da vida interior da personagem principal, a despeito de sua simplicidade e de seu caráter introvertido. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Uma_Vida_em_Segredo)

Sim, concordo com esta profundidade psicológica e riqueza da vida interior de Biela. Mas isto nunca me surpreendeu. Apesar de gostar e me identificar muito com Biela, nunca a considerei extraordinária ou mais densa do que outros personagens. Concordar com essa descrição faz parecer que algumas pessoas têm densidade interior, enquanto outras, não! Como não consigo conhecer ou compreender a densidade interior da maioria das pessoas, nunca foi o que me importou.

No livro me chamava atenção a dificuldade de sua prima Constância em entender que Biela estava feliz com sua vidinha. Constância não é uma vilãe nutre uma preocupação genuína com Biela e seu futuro, mas é apresentada como linda, fútil e vazia, preocupada com casamentos a aparências. Preocupa-se mais com a incapacidade da prima em desejar ter mais da vida do que com a realização de seus próprios desejos.

É Constância, e seu lento processo de compreender Biela para se autorrealizar, que nos mostras quem somos. E embaraça a relação ser/ter/aparência/essência. Biela e Constância são as mesmas pessoas, poderiam até ser um único personagem. Biela é quando estamos sentados em frente a TV. Constância é quando estamos no Facebook. Biela realiza seu desejo, Constância apenas projeta os seus.

Gosto das dualidades, multiplicidades que temos internamente. Como nunca fui coerente, entendo que estes personagens tão diferentes entre si se completem como um só, como se fosse eu. Elas trazem esse desejo profundo de realização que nutrimos, mas também a quietude e o comodismo que nos torna mais conformado com o que temos. E nos mostra que a felicidade pode estar nesta vidinha, sem muitas ambições, sem tantas realizações, apenas seguindo a vida.


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sobre Elizete Ignácio

sócia-fundadora e Diretora Executiva da Clave de Fá Inteligência em Pesquisa, empresa que trabalha as descobertas das pesquisas sociais para apoiar ações de impacto social positivo. Égraduada em Ciências Sociais e Mestre em Antropologia Cultural, com larga experiência em desenho de pesquisa e gestão de equipes multidisciplinares. Destaque para gestão de projetos e realização de pesquisas de mercado e pesquisas sociaisaplicadas em economia criativa e avaliação de impacto. É consultora do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas e do Sebrae/RJ. Idealizadora do Prêmio Rio V.I.E.S Moda, projeto que visa reconhecer ações inovadoras da moda ética carioca. É professora de cultura e patrimônio e de metodologias de pesquisas em instituições como a Incubadora Cultural PAC e o Istituto Europeodi Design, no Rio de Janeiro. Ministra cursos e palestras sobre pesquisa de mercado e pesquisa de impacto para micro e pequenos empresários.

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